Rumo ao norte pela Rota 9
A Ruta 9 é a única estrada que conecta Punta Arenas a Puerto Natales no sentido norte: 248 quilômetros de rodovia completamente asfaltada, pista dupla, que atravessa alguns dos territórios mais expostos do sul do Chile. O vento é uma constante nessa estrada — rajadas laterais que conseguem deslocar um veículo para fora de sua faixa — e não há postos de combustível nem serviços entre as duas cidades, portanto convém partir com o tanque cheio. A primeira metade do percurso transcorre pela pampa patagônica: plana, açoitada pelo vento, de uma enormidade quase avassaladora. Guanacos pastam à beira da estrada, emas farejam entre o capim, e pequenas lagoas em depressões protegidas do vento abrigam às vezes flamingos e cisnes-de-pescoço-preto. O limite de velocidade é de 100 km/h, e a rodovia é reta e desimpedida.
À medida que a estrada sobe rumo ao norte e a cordilheira dos Andes começa a se desenhar no horizonte ocidental, o caráter do terreno se transforma. A pampa árida cede lugar a matas de lengas e pastos mais úmidos; as montanhas se aproximam, e em dias claros os picos do maciço do Paine se avistam na distância bem antes de chegar a Puerto Natales. Pouco antes da cidade, a rodovia desce até o nível do mar acompanhando a costa do Canal Señoret, e a chegada é abrupta: da estepe aberta a uma pequena cidade portuária enquadrada por água e montanhas.
Chegada: Puerto Natales
Puerto Natales se situa na entrada do Seno Última Esperanza — assim denominado pelo explorador espanhol Juan Ladrillero em 1557, quando buscava desesperadamente uma saída ocidental para o Estreito de Magalhães. Não a encontrou. O nome permaneceu, e revela-se apropriado para o lugar: uma cidade ao fundo de um estuário cercada por montanhas, sem estradas que prossigam adiante a não ser em direção ao grande parque nacional do norte.
A cidade foi fundada formalmente em 1911 como porto para a próspera indústria de ovinos, colonizada por imigrantes britânicos, alemães, irlandeses, croatas e chilotes que chegavam para trabalhar nas estâncias que controlavam vastos territórios da Patagônia austral. Dois grandes frigoríficos — plantas de armazenamento frigorificado — processavam e exportavam lã e carne; um deles, o complexo restaurado de Puerto Bories a 3 quilômetros ao norte da cidade, funciona hoje como o hotel de luxo The Singular Patagonia, com sua maquinaria da era industrial preservada atrás de vidro em um museu que percorre todo o edifício. Vale a pena visitá-lo mesmo sem se hospedar lá.
Atualmente Puerto Natales funciona principalmente como porta de entrada para Torres del Paine, 112 quilômetros mais ao norte, e a infraestrutura da cidade reflete essa função: lojas de equipamento, operadores turísticos, aluguel de gear e uma variedade de restaurantes que servem cordeiro patagônico e centola se concentram nas ruas próximas à praça. A Costanera Pedro Montt, que corre ao longo do estuário, oferece as melhores vistas da cidade — as montanhas do maciço do Paine visíveis em tardes claras, refletidas na água cinzento-esverdeada. A velha locomotiva na praça, que um dia transportava trabalhadores para Puerto Bories, e o pequeno Museo Histórico Municipal perto da praça, com seus artefatos kawésqar e tehuelche, são âncoras silenciosas da história mais profunda da cidade. Há caixas eletrônicos em Puerto Natales, mas ficam sem dinheiro regularmente durante a alta temporada, quando a cidade se enche de trekkers rumo ao parque. O melhor é sacar dinheiro em Punta Arenas — uma cidade muito maior com infraestrutura bancária mais confiável — e tratar Puerto Natales como alternativa secundária para obter dinheiro.